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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Janela do Tempo - O VENDEDOR DE LIVROS

O VENDEDOR DE LIVROS
- Educador Glauco César





Folheando as amareladas e quase desgastadas páginas dos apontamentos de minhas recordações, escritas com as tintas melancólicas da saudade, ainda, tão nitidamente grafadas em minha faculdade da alma e, como se estivesse entrando numa máquina do tempo, faço vir novamente à memória, àqueles dias abafados dos quais insisto em não esquecer.
Encontrava-me naquele dia, recostado, preguiçosamente ao muro recém-construído, onde antes era a cerca viva do pomar de Dona Turbalina, viúva, do falecido Turbal.
Ainda meio sonolento, pensando no que fazer, e, querendo deixar de fazê-lo, sonhando com o futuro e querendo tê-lo no presente, filosofando comigo mesmo, descubro que o instante é a linha demarcatória que define, exatamente, o final do passado e o início do futuro.
Esforçando em manter aberto, os meus olhos, diviso, logo adiante, junto à cacimbinha, ao som do trinar de um pássaro qualquer, o revoar de um urubu, que ao sabor do vento planava majestosamente.
Contracenando com este espetáculo, estava trabalhando arduamente, na construção de sua moradia, Seu Vicentin, que fazia às vezes de pedreiro, e sua mulher, Sinhá Flor, ajudando-o a preparar o barro, sem se incomodar com o suor que lhe escorria sobre a face, avermelhada pelo sol escaldante, daquele verão.
Vez por outra, o pobre homem, ia até sua mulher, enxugava-lhe o rosto, oferecendo-lhe um copo d’água fria, que ele colhera de uma quartinha que estava à sombra de um pé de juá.
Subitamente, não mais que de repente, algumas imagens, penetram meu pensamento sem ter pedido permissão, é que o calor me fez cochilar, com direito também, a espasmódico e desencontrado sonho, que popularmente chamamos de pesadelo.
Até que, alguma coisa do inesperado acontece, troço este que, rouba de mim o devaneio, a ponto de me assustar e, sem querer, eu deixo escapar um grito de terror.
Quando dou por mim, percebo que uma terrível cobra, houvera passado por sobre meus pés, esse réptil traiçoeiro e perigoso poderia ter aniquilado, num instante, de uma vez por todas, minha vida, eu, com certeza, me mudaria para a cidade dos pés juntos, talvez, seria até vizinho do saudoso Turbal! Que Deus o tenha repousando, pois, prefiro viver cansado, aqui mesmo!
Nesse ínterim, ainda tremulo, percebo que Sinhá Flor estava, ternamente, tentando me acalmar, enquanto Seu Vicentin ia ao encalço da dita cuja.
- Acalme o moleque, mulé, num foi nadica de nada, foi só uma muçurana ou cobra preta, a danada não é venenosa nem agride o bicho homem, ela só ataca e matam as cobras venenosas, suas inimigas mortais.
- Seu Vicentin tem o hábito de ficar triturando com os dentes, grãos de milho seco. Ele passou sua mão calejada em minha cabeça e me ensinou muito sobre as cobras.
Foi naquela tarde que aprendi diferenciar as cobras não venenosas das venenosas.
Depois de tudo explicado, e muito bem entendido, o bondoso casal volta à labuta, e, tijolo após tijolo, vão desenhando, o que futuramente será sua casa, ou melhor, seu lar de felicidade!
Em meio a esse emaranhado: Acontecimento, sonho e informações eu pensava que não faltava mais nada, é quando, da inutilidade, surge o desajeitado e sempre alegre, Salta Caminho, que logo foi pedindo para eu contar “as novas” que ele contaria as suas novidades.
Querendo me fazer de sábio e, desenferrujando meu lado teatral, começo a representar, como se eu tivesse a colher do meu intelecto, as preciosas informações, que agora passo a despejar para meu amigo, tudo aquilo que momentos antes, aprendi com Seu Vicentin.
Com aquele jeitão de doutor sabe tudo, comecei a dizer que uma grande cobra preta houvera passado sobre meus pés, mas não fiquei intimidado, pois, sabia que não era venenosa!
De súbito, Salta Caminho arregalou seus olhos negros, semelhantes a duas jabuticabas.
Olhando para ele, comentei que não tive medo, porque a menina dos olhos da dita cuja era circular, bem redondinha, além de que sua cabeça era chata, assim como o nosso dedo polegar.
Ah! Também percebi que quase se não nota onde começa a cauda porque o corpo vai se afinando pouco a pouco.
Sem contar que, as não venenosas são ágeis, rastejam rapidamente, mas se espantam e fogem ligeiras ao menor ruído.
Salta Caminho, agora com um olhar interessado, queria saber, em face dessas informações. Como reconhecer uma cobra venenosa?
Garbosamente, com aquela postura de superioridade, achando que era o tal, e vendo meu amiguinho como um discípulo carente de entendimento, continuo com as descrições.
- Sabe, Salta Caminho, quando você se deparar com um ofídio, ou seja, uma serpente, fique atento, para estes simples detalhes: As cobras venenosas são geralmente lerdas, bem preguiçosas, feito você, rastejam vagarosamente, feito sua sombra. Só atacam quando se sentem ameaçadas.
Essas cobras vivem sempre escondidas e enrodilhadas. A menina dos olhos da cobra venenosa é um risco atravessado, semelhante aos olhos dos chineses. A cabeça dessas cobras tem o formato triangular, já seu corpo se afina de vez para formar a cauda.
Nesse momento, Seu Vicentin retira o caroço de milho de sua boca, olha no profundo dos meus olhos, dá alguns pigarros e sorri, como se estivesse me repreendendo, coça o alto de sua cuca e sai resmungando galhofadamente. – Menino inteligente, eu queria ter um filho assim!
- Sem entender muito bem o que estava acontecendo, Salta Caminho espia, bate palmas, coça o quengo, num gesto repetitivo, faz alguns movimentos de corpo, especialmente da cabeça e dos braços, sorri desconfiado e começa a falar.
- Eu teria me borrado todinho! Você tem uma coragem assoberbada, em vez de Graveto, você deveria ser, na verdade, um tronco para manter de pé tanta intrepidez e confiança...
- Salta Caminho, disse isso para me agradar, pois, percebeu no ar que existia alguma coisa errada, mas, não queria me deixar constrangido.
Ele continuou falando, com aquela forma toda peculiar, fazendo gestos, andando de um lado para o outro, representando as pessoas envolvidas no diálogo, ele continuou dizendo: - E, por falar em borrar eu quase me molhei todinho, de tanto ri, com o acontecido com Gadelha, aquele vendedor, que fala bem explicado.
Pois bem, o rapaz foi hoje lá em casa para vender uma coleção de livros, dum tal Francisco Marins, mamãe disse que era muito bom, com isso, Gadelha, que fala até pelos cotovelos, começou a contar como era a vida de um vendedor ambulante, que vai de rua em rua e de casa em casa.
Ele tem algumas técnicas de vendas que facilitam seu dia-a-dia de vendedor.
Pela manhã, ao sair de casa, geralmente ele informa em que rua vai trabalhar, e esclarece que é fácil encontra-lo, com certeza está em alguma casa, no lado da sombra. É que ele pela manhã visita todas as casas do lado da sombra, e à tarde ele visita as casas do outro lado da rua, é que a sombra muda de lado.
Assim, ele não é agredido pelo excesso de sol, e ainda por cima, acontecendo algum imprevisto, fica fácil de ser localizado.
Em suas andanças ele se depara com muitas pessoas bondosas, que além de se tornarem amigas, ainda oferecem algum ponche com mata fome ou beira seca. Ele aprecia muito esse tipo de hospitalidade.
Nessa semana, em Vila Feliz, visitando uma comunidade no Morro do Quadro, ele se viu afrontado por pessoas extremamente arredias aos vendedores, principalmente de livros.
Gadelha acha que algum vendedor de livro deu um grande calote naquele povo, pois, nunca tinha visto tanta aversão com requinte de maldade!
Sempre que ele abordava alguma pessoa, era enxotado como um cão vadio, casa após casa se repetia a cena. Ele já estava ficando desanimado e quase desistindo, quando, algo surpreendente aconteceu.
Ele, já meio descrente, com a bolsa em sua mão esquerda, muito desconfiado e, sobretudo inseguro, arrisca umas leves e inibidas ‘pancadelas’ na folha de madeira da porta, mas, preparado, para partir em rápida retirada.
Nada, nada acontece, ele então, aventura olhar pela brecha da porta e vê um longo corredor escuro, ao final do mesmo, numa parte alumiada pelo sol, divisa uma sombra de alguém estendendo algumas peças de roupas no varal.
Nesse momento, com coragem redobrada, se sujeita a dar umas pancadas mais fortes, percebe que a mulher enxuga as mãos no avental dependurado em seu pescoço, olha para o vazio, sobe alguns degraus se dirigindo, em direção ao vendedor.
Sua sombra se agiganta no corredor e, ao sair do sol, logo desaparece na escuridão. A moça abre a porta, saúda o vendedor e, cordialmente convida-o para entrar.
Nesse momento, Gadelha faz menção de abrir a valise quando, é interrompido pela jovem senhora, uma moça alta e delgada, com cabelos encaracolados. Ela retruca: - Não é aqui, venha e lhe mostrarei!
- Meio atordoado e surpreso, sem entender mais nada, simplesmente, acompanhou-a. Chegaram à cozinha, ambiente amplamente iluminado pela luz natural do sol.
Num lado, junto à porta que dá para o quintal, tinha uma jarra com tampa de barro, sobre esta, uma caneca de alumínio, no outro lado, um velho fogão a gás, ao centro, uma mesa encoberta com uma toalha de chita, sobre esta, uma vasilha com algumas frutas, uma lata de doce marca coqueiro e uma quartinha!
O vendedor olha para a mesma, ainda sem entender, quando o silêncio é interrompido pela distinta senhora, que apontando diz: - O fogão é este!
- E qual é o problema? Retruca o vendedor de livros.
- É que ele está entupido! Não quer acender!
- A válvula não está trancada? - A moça gentilmente maneia a cabeça indicando que a resposta é negativa. O vendedor pede uma agulha, emprestado e, pacientemente desentope o cachimbo do fogão, testa o mesmo, dá um suspiro, pega sua valise, quando novamente a dona da casa faz ver que além do entupimento, o botão de regular uma das bocas do fogão estava danificado.
O vendedor, impaciente, olha para os lados, vê no batente da janela, uma tampa de refrigerante, coloca entre seu polegar e o indicador, faz força, a ponto de amassar a dita cuja.
Retira, então, o botão danificado do fogão, em seu lugar coloca a tampa amassada que faz girar normalmente o regulador do fogão, satisfeito exclama: - Agora está tudo pronto!...
- A moça decepcionada pergunta se vai ficar daquele jeito, ele, por sua vez, faz ver que não tem nada com isso, ele é apenas um vendedor de Livros!...
- Você não é o técnico em fogões? - Não!
- A moça muda sua postura, fica afobada, ralha o vendedor, enxota-o feito um cachorro doido!...
Ele, por sua vez, fica da cor de burro quando foge e, desaparece no sol escaldante da tarde...


17 comentários:

  1. Continuo acompanhando! bjus!

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    1. Pena que não sei que você é, anônimo, para agradecer citando teu nome! De qualquer forma, espero que você tenha se deliciado com o texto! Obrigado mesmo!!!

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  2. Novo comentário colhido no face, desta feita de Tereza Cristina Almaida!
    Teresa Cristina Almeida - Ô coisa boa de ler!

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    1. Amiga Tereza Cristina, agradeço imensamente pelo teu comentário.
      O que escrevo, não passa de contos que formulo em minha mente e, compartilho, bobamente, para entreter meus leitores! Assim distribuo um pouco de distração aos meus amigos!

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  3. Novo comentário colhido no face, desta feita de minha amiga de longas datas, Kátia Sitônio Mesquita!
    Katia Sitônio Mesquita - Muito bem. Parabéns. Escritor de mão cheia

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    1. Amiga Katia, estava mesmo com saudade de teus comentários, principalmente no meu blog!
      Aproveito para agradecer teu belo incentivo, no entanto, não me considero um escritor, muito menos de 'mão cheia', todavia, de quando em vez, me arrisco escrever para desanuviar o tédio, e, repasso para meus amigos. Pois, quando alcançamos a melhor fase, vamos ficando invisíveis, as pessoas não nos percebem, então, enviamos nossos escritos, para anunciar que ainda existimos! Só assim, nos tornamos perceptíveis!

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    2. Resposta de Katia Sitônio, colhida no face, no Grupo Colégio Estadual de Caruaru.

      Katia Sitônio Mesquita - Glauco César Lima Silva você já brilha,não precisa de escritos para nos lembrar. Sempre os vejo,leio-os, mas as vezes não tenho tempo para parar e escrever. Estou com a vida uma loucura. Mainha doente, só tem eu pra cuidar dela. Eu ando também doente. Espero que essa fase passe logo. Mas gosto de ler seus escritos. Sucesso pra você!

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    3. Amiga Katia, eu sei bem de tua luta, sempre achei você uma autentica guerreira. Tenho certeza que Deus continua te abençoando, e que esse tempo de turbulência logo irá passar, prezo aos céus pelo restabelecimento de tua adorável mãe bem como de tua saúde. Sucesso para toda a família, amiga!

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    4. Resposta da amiga Katia, colhida no face!

      Katia Sitônio Mesquita - Glauco César Lima Silva muito obrigada beijos!

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  4. Novo comentário colhido no face, no Grupo Colégio Estadual de Caruaru, desta feita de minha colega Marizene Trajano, amiga de longos tempos, desde quando fazia o primário no Externato Santa Maria Gorete.

    Marizene Trajano - Gostei

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    1. Amiga Marizene Trajano, fico feliz por ter gostado deste singelo 'causo', que mistura a realidade com a ficção, e um pouco de criatividade! Obrigado amiga!

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  5. Novo comentário colhido no face, desta feita da leitora do Grupo do Colégio Estadual de Caruaru, Lúcia Vasconcelos.

    Lucia Vasconcelos - Lindo texto Glauco César Lima Silva adorei!

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    1. Amiga Lucia Vasconcelos, sou imensamente grato pelas palavras estimuladoras,fico bastante envaidecido. Em meus textos, procuro, quase sempre, incluir no contexto do mesmo, algumas informações que possam servir para o cotidiano do leitor, nesse caso, sobre serpentes! Obrigado pelo cativante comentário!

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  6. Novo comentário colhido no face, do Grupo Colégio Estadual de Caruaru, de meu amigo Angelo Marcos!

    Ângelo Marcos Arruda - Muito bom

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    1. Ângelo é muito bom receber tua aprovação, principalmente de você que é uma pessoa da área artística e literária! Obrigado pelo comentário!

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  7. Novo comentário colhido no face, desta feita da Educadora Jeane Camargo.
    Jeane Camargo - Parabéns Glauco César.

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    1. Amiga Jeane, fico bastante envaidecido por ter recebido teu acolhedor comentário, fato que emociona, receber o parabéns de uma pessoa tão competente como você! Obrigado!

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